Photoshop, Farsas e a Beleza Verdadeira – Parte 2: depois do clique e antes da cópia

Estou escrevendo uma breve série de textos sobre Photoshop e manipulação de imagens.  Muito tem se discutido acerca dos excessos da manipulação digital, mas os jornais frequentemente tratam esse assunto com uma visão ingênua ou desinformada.   Este texto, o segundo da série, pretende mostrar a importância dos processos laboratoriais – sejam eles digitais ou analógicos – e esclarecer que a imagem não é menos “honesta” por passar por alterações depois do momento do clique.

O texto anterior falava da manipulação de imagens antes da foto digital, e tinha como exemplo fotos de Stalin em que ele mandava apagar ex-aliados das imagens.  No entanto, a mentira não é sequer o maior dos inúmeros motivos para alterar uma imagem.  Fotografia é como texto ou pintura: é comunicação.  A imagem fotográfica reproduz um discurso: aquele do fotógrafo ou do editor ou de quem quer seja responsável pela veiculação da imagem.  Assim como um texto pode ser coloquial ou formal, assim como precisa de pontuação e tem estilo, a imagem fotográfica também segue regras e tem estilo.  Se ela é muito densa (escura), muito granulada, se tem pouco contraste, se o foco é impreciso; isso tudo é pensado e construído.  Esses atributos e muitos outros não serão ignorados por quem vê a imagem, ainda que o observador não saiba elaborar formalmente sobre o papel de cada um deles.

Infelizmente, para o seguinte exemplo, não há um “antes e depois” disponível publicamente.

Refugiados no campo Korem

Refugiados no campo Korem. Fonte da imagem: http://www.masters-of-photography.com/S/salgado/salgado.html

Sebastião Salgado é um fotógrafo brasileiro aclamado internacionalmente; seus retratos documentais contém uma força difícil de descrever.  A foto acima, como qualquer outra de Sebastião Salgado, não aparece assim no filme.  No momento do clique, o filme guarda muita informação da luz projetada nele.  Muitas vezes é impossível copiar toda essa informação para o papel, quase sempre é impossível fazê-lo sem utilizar “truques” de laboratório.  Na foto acima, para o rosto do homem estar visível, o céu teria ficado branco.  Para o céu ficar cinza claro como está, o rosto do homem estaria totalmente preto.  Imagino que o chão, nos cantos inferiores da foto, também estariam quase brancos se a foto não tivesse sido trabalhada por um bom laboratorista.  Retoques e “ajustes” sempre foram feitos na fotografia analógica, até mais do que na digital.  Porque passaar para o papel uma imagem capturada no filme exige isso, e essa “manipulação” se torna parte obrigatória do processo.  Capturar a imagem é apenas um passo de muitos para chegar a uma foto.

Ainda assim, é comum a noção de que a foto sem pós-processamento é aquela que melhor representa a verdade.  Na internet, em sites como Flickr, há muitos grupos dedicados a reunir fotos “sem photoshop.”  Os argumentos são diversos, mas todos parecem ter em comum a vontade de ver a imagem “verdadeira”, sem qualquer manipulação digital.  Acontece que a imagem, aquilo que atravessa as lentes da câmera, não passa de radiação eletromagnética.  É luz.  Não é um arquivo JPG.  O arquivo JPG que a câmera produz é resultado de uma série de processos realizados por um software, interpretando os dados que o sensor enviou após ser atingido pela radiação.  As informações de cada pixel são combinadas de acordo com algoritmos desconhecidos pelos usuários, e isso é algo que não pode ser desabilitado em nenhuma câmera amadora.  Portanto, uma foto digital sem nenhum tratamento ou manipulação é apenas tão verdadeira quanto uma foto que sofreu alterações pré-programadas pelo fabricante da câmera.

lençóis maranhenses

A foto acima, de minha autoria, recebeu alguns tratamentos diferentes, todos feitos no Photoshop.  O que a edição pretende é trazer à tona diferentes informações que, embora não fossem visíveis, já estavam presentes na imagem.  Nenhuma é mais ou menos real do que a outra, todas são representação e discurso.

No próximo texto, o movimento em prol da “beleza natural.”

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3 comentários

  1. leandro lopes
    Postou em 8 de junho de 2010 às 10:15 | Permalink

    eita que vc tá me convencendo.
    adorei a menção diplomática ao SS.

    • Postou em 8 de junho de 2010 às 11:02 | Permalink

      Haha, é mesmo, uns anos atrás a gente tava falando sobre correção de cor nas suas fotos, né…
      Diplomático o suficiente, você achou? ;-)

  2. lay
    Postou em 24 de julho de 2010 às 18:30 | Permalink

    nunca pensei nisso.
    a fotografia tambem eh verossimil

Um trackback

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